A presente coletânea apresenta textos (artigos de jornal, entrevistas para revistas e projetos de dispositivos constitucionais) produzidos entre 1978 e 1989, momento considerado pela historiografia conservadora como “período da abertura” da ditadura civil-militar brasileira, mas que apenas marcava uma nova postura das elites de se transformar para se conservar diante da incontornável e incansável resistência popular.
O conjunto dessa produção revela um Florestan Fernandes, professor e pesquisador, comprometido dos pés à cabeça com a efetivação de uma educação pública, democrática e para todos. Ciente de que a reivindicação abstrata por educação, por si só, não garante seu caráter transformador, o autor faz questão de contextualizar histórica, social e economicamente os esforços como político, como militante e como professor. Para ele, “uma escola que não seja capaz de funcionar como comunidade educacional não educa professor, não educa estudante e não educa funcionário. Deseduca a todos”.
A coletânea está dividida em duas partes:
A crise do ensino: contrastes do crescimento sem democracia e
O professor e a transformação do concreto, a obra reúne importantes intervenções públicas de Florestan a respeito da futura Lei de Diretrizes e Bases da Educação (que começava a ser estruturada com a Constituição de 1988 mas que só é promulgada em 1996), do debate sobre o papel da universidade na especificidade da economia dependente brasileira e da educação pública em geral no contexto de luta dos anos de 1980.
E contra as concepções rasas sobre a interferência dos movimentos de esquerda no debate educacional, se posiciona: “O objetivo último da educação escolarizada não está em ‘fazer a cabeça do estudante’. Mas em inventar e reinventar a civilização sem barbárie.”
Trecho do Livro:
“A educação é o mais grave dilema social brasileiro. A sua falta prejudica da mesma forma que a fome e a miséria, ou até mais, pois priva os famintos e miseráveis dos meios que os possibilitem a tomar consciência da sua condição, dos meios de aprender a resistir a essa situação. […] Essa a função do nosso sistema de educação escolar: reproduzir o sistema tal qual. Aí está o caráter grave desse dilema.” (Florestan Fernandes)
“Não basta remover os ‘excessos’ de centralização, que substituem a relação pedagógica pela relação de poder. É preciso construir uma escola autossuficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos. Conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente.” (Florestan Fernandes)